A Uber anunciou que vai comprar a ezCater, uma plataforma de catering para empresas, por 2,3 mil milhões de dólares. Para os restaurantes portugueses, a notícia é ao mesmo tempo uma oportunidade e um alerta: há uma fatia de mercado pouco explorada em Portugal, a das refeições para empresas, e há mais um intermediário a preparar-se para cobrar comissão sobre ela.
Foi este o tema da Notícia da Semana no Bar Aberto de 7 de outubro de 2026, o programa d'O Gerente em direto no YouTube. Foi o primeiro episódio com Jerry Thomas, fundador e sócio-gerente da Auratus, como comentador residente, ao lado de Hélder Santos e Sérgio Araújo. Ao longo de quase duas horas, a conversa passou pelo catering para empresas, pela dependência das plataformas, pelo uso de influencers e pelo que fazer quando só há 300 € para marketing.
O que é a ezCater e porque é que a Uber a quer comprar?
A ezCater é uma plataforma norte-americana onde as empresas encomendam refeições para reuniões, eventos e almoços das equipas. O negócio foi anunciado a 6 de outubro de 2026, será pago em dinheiro e ainda precisa de aprovação dos reguladores. Os números ajudam a perceber o interesse da Uber:
A Uber quer juntar a ezCater ao Uber Eats e ao Uber for Business para entrar num segmento de pedidos grandes e de valor alto. Para comparação, foi lembrado no programa que Portugal tem entre 70 e 80 mil estabelecimentos de restauração e similares. Só a rede da ezCater tem quase o dobro disso.
Catering para empresas: oportunidade ou alerta para os restaurantes em Portugal?
Para o Jerry, as duas coisas:
"Isto pode ser tanto uma oportunidade como um alerta para a restauração."
É uma oportunidade porque poucos restaurantes portugueses trabalham diretamente para empresas. Quando pensam em empresas, a maioria pensa em encher a sala ao almoço durante a semana, e não em levar a comida até elas. O Jerry deu o exemplo de um cliente da Auratus com restaurante na zona industrial de Vagos que já faz isto: prepara refeições para fábricas com 100 a 200 colaboradores sem refeitório, carrega a carrinha e entrega antes da hora de almoço.
Como em Portugal não existe uma ezCater, este trabalho tem de ser feito pelo próprio dono do restaurante, a criar parcerias empresa a empresa. É mais difícil, mas é também uma vantagem: na opinião do Jerry, este tipo de plataforma vai demorar a chegar cá, o que abre uma janela de alguns anos para os restaurantes ocuparem este espaço primeiro.
É um alerta porque, quando estas plataformas chegarem, vão querer uma comissão sobre vendas que os restaurantes já fazem hoje:
"Quando pagamos uma comissão por uma venda que, numa situação normal, não faríamos, está tudo certo. O problema é quando pagamos uma comissão por uma venda que conseguíamos fazer sem ter de a pagar."
O Jerry separou ainda dois tipos de serviço. Nos pedidos pontuais, como um almoço de negócios ou uma reunião, uma plataforma faz sentido, porque a empresa quer variar. Nas refeições diárias para colaboradores, acredita que o dono da empresa vai continuar a falar diretamente com o restaurante para negociar preço e quantidade.
Como conseguir os primeiros clientes empresariais
A conversa deixou várias ideias práticas para quem quer começar:
- Olhar para as empresas à volta do restaurante e perceber quais não têm refeitório ou fazem reuniões e eventos com frequência.
- Ir com uma oferta já montada. Muitas empresas nem sabem que precisam deste serviço. Bater à porta e perguntar "do que precisam?" funciona pior do que chegar com uma proposta concreta.
- Criar um menu próprio para empresas, pensado para o volume que a cozinha consegue produzir, em vez de tentar vender a carta normal.
- Fazer entregas em volume. Levar 30 ou 40 refeições de uma vez é muito mais eficiente do que 30 entregas soltas.
- Pensar em parceiros fora do óbvio, como imobiliárias que organizam dias de casa aberta, hotéis e alojamentos locais.
- Ter as embalagens e a logística preparadas antes de fechar o primeiro acordo.
TheFork, Uber Eats e agora o catering: o perigo de depender das plataformas
A notícia levou a um tema que o Jerry considera central para o futuro dos restaurantes: cada vez há mais intermediários entre o restaurante e o cliente.
"O TheFork está para os restaurantes como o Booking está para os hotéis."
O TheFork fica com uma parte das reservas, o Uber Eats e a Glovo com uma parte do delivery, o Google e as redes sociais dominam a forma como as pessoas descobrem restaurantes novos, e agora o catering também tem um candidato a intermediário. Como se sublinhou no programa, a margem dos restaurantes não está a desaparecer só por causa das matérias-primas e dos impostos: perde-se também nas comissões, sobretudo quando juntam promoções de 30%.
O Jerry não é contra as plataformas. Defende que se usem em situações específicas e de forma inteligente, para ir buscar clientes que de outra forma não viriam. O problema é ficar dependente delas. Contou o caso de restaurantes clientes em que pessoas que já reservavam diretamente passaram a fazê-lo pelo TheFork por causa dos pontos da aplicação. Ou seja, o restaurante passou a pagar comissão por clientes que já eram seus.
"Se não tivermos os nossos próprios meios de aquisição de clientes, toda a gente nos vai tirar uma fatia e depois não sobra nada para nós."
Porque é que a base de dados de clientes é o ativo mais valioso do restaurante
A solução passa por ter canais próprios e, acima de tudo, dados próprios: o contacto de quem já se sentou à mesa. Plataformas como o TheFork ficam com esses dados, e sem eles o restaurante só pode fazer publicações e anúncios.
Com uma base de dados, o restaurante pode trazer de volta quem deixou de aparecer. Muitas vezes, os clientes não voltam simplesmente porque se esqueceram. O Jerry deu o próprio exemplo: mesmo trabalhando com restaurantes todos os dias, quando sai para jantar em Aveiro só se lembra de três ou quatro. Uma mensagem simples a dizer "já não nos visita há mais de 90 dias" pode ser suficiente para alguém reservar outra vez.
É por isso que a Auratus dá tanta importância a ter um sistema de reservas próprio e a construir a base de dados de cada restaurante cliente, como faz com a MesaOn.
As três formas de aumentar a faturação de um restaurante
Quando um dono de restaurante quer faturar mais, o reflexo é pensar em clientes novos e em anúncios. O Jerry lembrou no programa que há três caminhos, e que a Auratus trabalha os três:
- Trazer clientes novos.
- Fazer com que os clientes atuais venham mais vezes. Quem vem de dois em dois meses e passa a vir todos os meses aumenta a faturação no fim do ano.
- Fazer com que gastem mais em cada visita, ou seja, aumentar o ticket médio.
Trazer de volta um cliente que já conhece a casa é quase sempre mais barato do que conquistar um novo. E há um erro comum que o Jerry vê todos os anos: parar o marketing no verão porque a casa está cheia.
"Isto não é uma torneira que se abre e que se fecha. É um trabalho constante."
As próprias plataformas, como a Meta e o Google, valorizam a consistência. Quem para no verão e volta no inverno precisa de vários meses para recuperar os resultados, precisamente quando mais precisa deles.
Influencers nos restaurantes: comprar alcance não é comprar clientes
Outro tema da noite foram os influencers. O Jerry admite que não é fã da profissão, mas reconhece que são uma ferramenta de marketing importante e usa-os com alguns clientes. O erro mais comum, diz, é este:
"Uma coisa é comprar alcance, outra coisa é comprar clientes."
Um perfil com 120 mil seguidores não garante clientes, sobretudo se a maioria vive noutro país. Antes de contratar um influencer, o Jerry olha para três fatores:
- Geografia: onde está o público do influencer.
- Audiência: se quem o segue é o tipo de cliente que o restaurante quer.
- Capacidade de influenciar: se as pessoas agem quando ele recomenda alguma coisa, e não apenas quantos seguidores tem.
Depois, é preciso medir. Uma página de reservas própria para aquele influencer, um link com rastreio ou um código de desconto permitem saber quantas pessoas vieram por causa dele. Como se perguntou no programa: se se dá 30% de desconto numa plataforma, porque não 10% a quem vem por um influencer?
E há ainda outra forma de olhar para eles: como criadores de conteúdo. Fica pré-acordado que as fotografias e os vídeos também ficam para o restaurante, para usar depois nas redes sociais e em anúncios. Às vezes, o conteúdo vale mais do que o alcance.
Marketing para restaurantes com 300 €: por onde começar?
Numa das perguntas finais, o Sérgio pôs o Jerry perante um cenário comum: um restaurante com as contas equilibradas e 300 € para investir em marketing pela primeira vez.
A primeira resposta do Jerry foi que pagar a uma agência ou a um freelancer não é investimento em marketing, é estrutura. Alguém tem de fazer esse trabalho, tal como alguém tem de servir às mesas ou lavar copos. Se não houver orçamento para isso, é o dono que o faz. O investimento é o que se gasta em anúncios, flyers ou publicidade.
Com pouco dinheiro, o que tem de sobrar é tempo. Com 300 €, o Jerry faria assim:
- Contratar um bom fotógrafo para fotografar o espaço e os pratos.
- Publicar ele próprio esse conteúdo nas redes sociais.
- Apostar no contacto um a um e nas parcerias: falar com quem passa à porta, contactar pessoas em grupos de WhatsApp e Facebook da zona, e criar parcerias com empresas, que geram clientes de forma recorrente.
Com mais orçamento e menos tempo, aí sim, os anúncios ajudam a acelerar o processo.
Quando o marketing não consegue salvar um restaurante
A última pergunta da noite foi se já houve restaurantes em que a Auratus percebeu logo que não podia ajudar. A resposta do Jerry foi direta: acontece muitas vezes, e quase sempre o problema é de gestão, não de vendas.
"Não vale a pena amplificar as vendas se a gestão é miserável."
Nesses casos, o Jerry encaminha os donos para O Gerente, porque a Auratus não resolve problemas de gestão e ninguém o faz melhor do que eles. É a mesma ideia do método d'O Gerente: primeiro o lucro, depois a equipa e só no fim as vendas. O marketing amplifica o que o restaurante é, para o bem e para o mal.
O Gerente, a Academia e o Dia do Gerente
No fim do programa, o Jerry contou como começou a ligação da Auratus a'O Gerente. Foi há cerca de dois anos, no Dia do Gerente em Braga, que decidiu entrar para a Academia O Gerente:
"Mudou completamente a forma como eu olhava para o setor e a forma como eu trabalhava para o setor."
Conviver com donos e gerentes que sentem as dores do dia a dia, diz, permite-lhe hoje fazer um trabalho muito mais útil para os restaurantes. Hoje, a Auratus dá aulas de marketing na Academia.
O próximo Dia do Gerente é a 9 de novembro de 2026, em Braga, no IPDJ, das 9h às 19h. É a sétima edição e conta com Ricardo Graça Moura (Grupo Flow), Luís Azeredo (DIG-IN), Ricardo Ribeiro (Grupo do Avesso), João Coelho (Grupo Fullest) e Nuno Pontes (Grupo Camada), com Hélder Santos e Sérgio Araújo como anfitriões.
O Bar Aberto continua todas as quartas-feiras às 22h, em direto no canal de YouTube d'O Gerente. Os episódios anteriores estão na playlist do Bar Aberto.
Se queres pôr o marketing do teu restaurante a trabalhar para a faturação, e não só para os gostos, fala connosco.
Perguntas frequentes
O que é a ezCater?
A ezCater é uma plataforma norte-americana onde as empresas encomendam refeições a restaurantes para reuniões, eventos e almoços das equipas. Trabalha com mais de 140 mil restaurantes nos Estados Unidos e o valor médio de cada encomenda passa os 400 dólares.
Quanto pagou a Uber pela ezCater?
A Uber anunciou a 6 de outubro de 2026 a compra da ezCater por 2,3 mil milhões de dólares, em dinheiro. O negócio ainda depende de aprovação dos reguladores.
O catering para empresas é uma boa oportunidade para restaurantes em Portugal?
Sim. Poucos restaurantes portugueses trabalham diretamente para empresas e ainda não há uma plataforma dominante neste segmento. Quem criar parcerias agora pode garantir clientes recorrentes antes de chegarem os intermediários.
Como é que um restaurante pode depender menos do TheFork e do Uber Eats?
Tendo canais de reserva e de venda próprios e, sobretudo, uma base de dados dos seus clientes. Com os contactos de quem já veio, o restaurante pode trazê-los de volta sem pagar comissão.
Como escolher um influencer para promover um restaurante?
Olhando para três fatores: onde está o público do influencer, se esse público é o tipo de cliente do restaurante e se as pessoas agem quando ele recomenda algo. Depois, é preciso medir os resultados com um link, uma página de reservas ou um código de desconto.
Como fazer marketing para um restaurante com pouco orçamento?
Com pouco dinheiro, é preciso investir tempo: boas fotografias, publicações feitas pelo próprio dono, contacto direto com potenciais clientes e parcerias com empresas da zona. Os anúncios aceleram o processo quando há mais orçamento.

